Com a política monetária desacelerando a economia real para conter a inflação, o alerta acende no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma retração ou forte desaceleração da atividade em pleno ano eleitoral é vista como um risco para a provável candidatura à reeleição do chefe do Executivo em 2026.
Com os sinais dessa pressão sobre os juros aparecendo na economia real, mais vozes do governo têm se levantado contra a autonomia do BC (Banco Central), entidade que define os juros básicos da economia. Uma delas é a do vice-líder do governo no Congresso Nacional, deputado Elvino Bohn Gass (PT-RS), que foi taxativo: “o BC tem que ser dependente”.
Críticas ao comando de Galípolo no Banco Central
“O Banco Central tem que ser dependente do país e não autônomo ao país. Temos que fazer esse debate político”, disse Bohn Gass em entrevista exclusiva ao ND Mais.
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Para o parlamentar, a instituição deve estar subordinada ao projeto político do país, em vez de operar com a atual independência institucional. Ele afirmou que a autonomia “tem que acabar” e classificou o atual patamar da taxa de juros como “indefensável”.
O deputado também não poupou o escolhido de Lula para ocupar a presidência do BC, Gabriel Galípolo, que, mesmo sendo um nome indicado “por nós”, estaria “errado” ao não reduzir os juros. Para ele, a inflação estaria controlada e isso daria condições para iniciar um ciclo de queda na taxa.
Arrecadação, gasto público e disputa sobre a autonomia do Banco Central
Questionado sobre a pressão do gasto público, o vice-líder apontou a necessidade de reforçar a arrecadação, cobrando a aprovação pelo Parlamento de medidas que, segundo ele, possibilitem cobrar melhor dos sonegadores e reduzir isenções tributárias de diversos setores economicamente fortes.
“Quando a oposição fala de “gastança”, precisamos explicar: a gastança que eles querem dizer é gastar com o povo. E tem que continuar. Agora tem que equilibrar a conta” diz.
Apesar da defesa do parlamentar, economistas apontam que o fim da autonomia do BC pode comprometer a credibilidade da moeda e provocar forte pressão inflacionária. Na avaliação de analistas, mexer na autonomia do Banco Central também tende a elevar o prêmio de risco do país, o custo do crédito e, no limite, prejudicar o crescimento — o que seria desastroso para os planos do atual governo de conseguir a recondução nas urnas em 2026.
Confira entrevista com vice-líder do governo no Congresso, Elvino Bohn Gass
O senhor é ligado ao campo, agora atua na indústria?
Eu, Elvino Bohn Gass, agricultor familiar, agora relator do projeto da indústria do país, me sinto responsabilizado e feliz, porque prioridade (com a agricultura) não é exclusividade.
O fato de eu prioritariamente pensar na importância do meu país produzir alimentos — os pequenos da agricultura familiar, os quilombolas, os assentados e a agricultura empresarial — estão com os maiores índices de produtividade. E não tem produção nesse país sem subsídio do governo.
O grande produtor vai comprar maquinário com financiamento público. O grande produtor precisa de uma tecnologia: Embrapa, dinheiro do Lula. Vai na assistência técnica, se ela é pública, dinheiro público. Estradas, rodovias, o calado das embarcações, mercados que se abriram.
O Fávaro, que é o nosso ministro do Lula, anunciou que o Brasil, que era o segundo maior produtor de carne do mundo, agora é o primeiro — saiu essa semana. Dá para acreditar que alguém pode produzir só com recursos próprios? Não. Tem financiamento estatal e é correto e tem que ter. Defendo isso.
A agricultura vai continuar em boas condições, mas claro, sempre temos o problema do clima, a questão dos preços, de mercado e os custos, puxados pelas privatizações.
Eu subi na tribuna e questionei os colegas da frente agropecuária: como os deputados deixaram vender a Fafen (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados, à época subsidiária da Petrobras) pelo Bolsonaro? Nosso país produzia fertilizantes, venderam, ficou mais caro. O saco da ureia estava R$ 300. Nós já baixamos esse valor: hoje está em torno de R$ 140 a R$ 150.
O combustível no tempo do Bolsonaro estava lá em cima, gasolina passou de 8 reais. Hoje, quando baixa na refinaria, muitas vezes não chega no posto porque não tem instrumento público: privatizaram os postos BR.
Nós temos que reestatizar. Não posso falar pelo Lula, mas tenho certeza que é um desejo nosso refazer uma estatização (dos postos BR), porque quando baixa na refinaria tem que chegar no consumidor.
Por isso que eles não podem voltar. No tempo do Bolsonaro a gasolina estava em mais de 8 reais. Se ele estivesse, poderia estar em 10, talvez 12. Por isso que eles não podem voltar, que vai aumentar de novo esses preços. Nós vamos garantir o preço em baixa.
E quando eu digo que estamos encerrando um ano bom no Brasil, apesar das dificuldades mundiais, é porque temos um desemprego baixo, salário-mínimo aumentando acima da inflação, tiramos o Brasil do mapa da fome, o Brasil respeitado, começamos a industrialização, inflação controlada.
Claro que ainda temos um juro alto ainda. Esse, temos que baixar. Essa taxa é indefensável. Essa autonomia do Banco Central, aprovada pelo Congresso — que eu fui contra — tem que acabar. O Banco Central tem que ser dependente do país e não autônomo do país. Temos que fazer esse debate político.
Mas o presidente Galípolo, e a maioria dos diretores, foi escolhida pelo presidente Lula. Por outro lado, os economistas apontam que o gasto público maior que a arrecadação é o principal fator da manutenção da taxa nesse nível.
Presidente do Banco Central do Brasil indicado por Lula, Gabirel Galípolo. Foto: Raphael Ribeiro/BCBFoto: Gabriel GalípoloO Banco Central não tem que ser independente. Esse conceito fiscalista de só gastar o que arrecada… Mas quando a gente quer arrecadar mais para cobrar de quem sonega, de quem não contribui, ou de quem tem muitas isenções, o Congresso não deixa. Mas para votar penduricalhos para grandões, o Congresso aprova. Essa é a contradição.
O problema está no Congresso. Por isso que precisamos de um Congresso que caminhe junto, para que quem sonega, quem não paga, também contribua.
O mesmo acontece com a questão da segurança. O Lula apresentou um projeto antifacção e uma PEC da segurança. Era para fortalecer a Polícia Federal, e o Congresso, através do Derrite, que é da extrema-direita, veio aqui para enfraquecer a Polícia Federal. Hoje, uma apreensão de um bem de bandido ia para a PF; ele queria direcionar para outro lado, enfraquecendo a PF.
O Lula encerra o ano com essa pérola: a extrema-direita que sempre fala “mais cadeia, mais cadeia”, mas quando os deles vão para a cadeia é menos cadeia; eles vêm com anistia. É contradição, hipocrisia.
O senhor avalia com otimismo 2025, mas essas pautas mostram que o governo teve muitas dificuldades neste ano…
Eu não sou um otimista, eu sou um realista. Se no final do ano o Brasil não está mais no mapa da fome, o desemprego é baixo, a indústria começou a dar sinais de retomada — mesmo que ainda longe do ideal —, voltamos com os programas sociais, com o Minha Casa, Minha Vida, com o Pé-de-Meia, ampliado no orçamento (do próximo ano) para R$ 12 bilhões para universalizar o programa, com o Auxílio Gás, com o Brasil respeitado no mundo… tivemos um ano bom.
Programa Pé-de-Meia Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/NDAgora temos a expectativa de melhorar, com controle da inflação, e a gente brigar para baixar o juro. Mesmo ele tendo sido indicado por nós, eu acho que ele está errado: tem que baixar juros. Temos que brigar com o Banco Central.
Os juros reais são maiores do que os praticados pelo indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro?
Provavelmente o (presidente) anterior deixou isso encaminhado de forma que ele não teria como baixar. Agora nós vamos começar uma fase de redução. A inflação está controlada e temos agora condição de baixar os juros. Pode anotar: vai reduzir. Temos que ter esperança também. Não de braços cruzados, mas temos que ter esperança.
Por exemplo: se os juros estão altos, no Pronaf, o governo pega o dinheiro a 15% e oferece para agricultor familiar a 4%. De 15 para 4, a diferença é de 11%. Quem paga é o governo. Na agroecologia, com a produção orgânica, o juro é 0 e 2%. O governo paga para estimular.
Se o juro fosse mais baixo, ia pagar menos. Então, quando falam de gastança, a gente tem que explicar isso.
Quando a oposição fala de “gastança”, precisamos explicar: a gastança que eles querem dizer é gastar com o povo. E tem que continuar. Agora tem que equilibrar a conta.
Para equilibrar essa conta, a gente precisa baixar os juros — isso equilibra um monte — e fazer pagar quem não paga, quem sonega.