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O nó diplomático de Lula e a ‘química do caos’ na eleição de 2026

Flávio Bolsonaro acusa lula de antissemitismo em evento em IsraelFoto: Reprodução/ND Mais

Quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu a rampa do Planalto em 2023, prometeu recolocar o Brasil no “clube dos adultos” da diplomacia. A ideia era uma política externa estável e previsível, longe de conflitos ideológicos estridentes que marcaram a gestão anterior. Mas, no retrovisor de 2025, o cenário global foi tudo, menos calmo: o presidente chega ao ano eleitoral de 2026 ainda solucionando os atritos com Trump, com um desgaste retórico com Israel e com o esfriamento com a Alemanha e o recuo no acordo do Mercosul com a União Europeia — um campo minado que agora pode ameaçar, ou impulsionar, sua campanha pela reeleição.

Com 2025 marcado por uma volatilidade extrema, principalmente depois do retorno de Trump à Casa Branca e sua lógica transacional que passou a pautar a relação entre Washington e diversos parceiros, Lula precisa manter o bom relacionamento com o americano e evitar reflexos nas urnas em outubro.

Nos bastidores de Brasília, membros do governo e diplomatas respiram aliviados, mas com cautela depois da “química” entre os dois líderes. Mas setores palacianos ainda demonstram temor de alguma tentativa da ala mais ideológica de Washington em influenciar o pleito brasileiro.

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A proposta de Trump para um “Conselho da Paz” é vista por críticos como a nova armadilha, que busca medir os alinhamentos automáticos aos americanos e exemplifica o dilema de Lula: participar pode corroer a tradição de autonomia da diplomacia brasileira, mas recusar pode custar caro nas negociações comerciais as vésperas das eleições.

Na oposição, nas movimentações lideradas pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), diz que o Brasil ficou isolado em certos fóruns e se aproximou de nações tratadas como “párias” por Washington. Do outro lado, o governo aposta na imagem de Lula como estadista capaz de dialogar com Xi Jinping e com Trump, vendendo a superação do “tarifaço” de 2025 — com recuos e exceções — como troféu de competência.

Tudo se encaminha para que a política externa — geralmente lateral em eleições brasileiras — ganhe contornos de protagonista em 2026. E a grande incógnita está na capacidade do governo Lula em transformar a gestão dessas crises em ativos eleitorais.

A eleição de 2026 pode não ser decidida apenas nas urnas, seja de São Paulo ou do Nordeste, mas também na narrativa sobre como o Brasil está atravessando o caos geopolítico até o momento do voto. Neste cenário, o ND Mais conversou com especialistas, cientistas políticos e fontes do alto escalão diplomático para desenhar o mapa desse “nó diplomático”. O veredito converge em um ponto: o mundo mudou, e a diplomacia brasileira, baseada no multilateralismo, enfrenta seu teste mais duro.

Na campanha de 2026, a política externa de Lula será alvo de ataques da oposição e celebrada como vitória pelo governo. A manutenção, ou não, da boa relação com Trump pode definir quem terá a melhor carta nesse campo. Encontro de Lula e Trump na MalásiaFoto: White House/ND Mais

A “petroquímica” entre Lula e Trump ou a química do caos

A relação entre Brasília e Washington em 2025 desafiou previsões apocalípticas. A ruptura total não veio; no lugar, instalou-se uma convivência tensa, porém funcional. Para Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, a dinâmica passa por uma “química”, que seria real, entre Lula e Trump, onde o pragmatismo falou mais alto que a ideologia. O governo brasileiro obteve recuos e exceções em sobretaxas (“tarifaço”) e manteve os canais de negociação abertos.

Já para o embaixador Paulo Roberto de Almeida, não há sofisticação diplomática do líder americano. Para ele, não existe estratégia geopolítica na Casa Branca: há apenas interesse financeiro pessoal e familiar de um presidente que ele define sem meias palavras: “O Trump é um negociador ignorante. O que interessa ao Trump não é democracia, é dinheiro… Dinheiro não só para os Estados Unidos, como para ele, pessoalmente, para a família. Ele é um cara tão imprevisível em tudo que não dá para escrever nada do que vai acontecer… Ele é um cara maluco”, diz o embaixador.

A sobrevivência do Brasil nesse cenário, segundo Almeida, depende menos da habilidade do Itamaraty e mais da capacidade de oferecer negócios lucrativos ao entorno de Trump — seja em terras raras, seja em outros ativos —, independentemente de quem esteja no Planalto.

Isso desmonta a tese de um alinhamento ideológico automático de Trump com a direita brasileira. Segundo o embaixador, o presidente americano já teria “desembarcado” da família Bolsonaro, e considera inócuas as tentativas de Flávio buscar apoio externo sem contrapartidas concretas.

Em conversas reservadas, interlocutores do Palácio do Planalto falam sobre o receio de alguma tentativa de interferência norte-americana no pleito de outubro. Já no Itamaraty, diplomatas de carreira não demonstram essa preocupação.

Ao mesmo tempo, interlocutores do entorno da família Bolsonaro, reservadamente, dizem temer que, com a retomada da relação entre Lula e Trump, o presidente norte-americano, que reconhecem como um negociador, possa construir um acordo que o leve a ser mais simpático a Lula, ou mesmo, manter a neutralidade.

Para o cientista político Robson Carvalho, para Lula, o melhor acordo com Trump seria a neutralidade. “Sua melhor ajuda a Lula seria a neutralidade. Uma declaração de apoio de Trump a qualquer candidato de direita teria um efeito limitado no cenário brasileiro atual”, aponta.

Na campanha de 2026, a política externa de Lula será alvo de ataques da oposição e celebrada como vitória pelo governo. A crise com o governo de Israel deve impactar especialmente nos eleitores evangélicos. Chamado de “apoiador do Hamas”, Lula acusa Israel de genocídio em GazaFoto: Reprodução/Agência Brasil/ND

Política externa de Lula e Israel: a batalha de narrativas

Se a relação com os EUA é atravessada por interesses e tarifas, a crise com Israel virou embate político e retórico. A escalada do conflito entre Lula e Benjamin Netanyahu e as críticas às ações em Gaza abriram um terremoto interno. A oposição, vocalizada por Flávio Bolsonaro, acusa o governo de antissemitismo e alinhamento com ditaduras, usando viagens ao parlamento israelense (Knesset) para reforçar essa narrativa.

“Houve um rompimento retórico e críticas à posição de Israel em Gaza, mas o Brasil manteve sua estratégia histórica via multilateralismo. O embate foi demarcado contra o governo (Netanyahu), e não contra o Estado. O efeito foi maior na discussão interna — com grupos acusando o governo de antissemitismo… do que na agenda internacional”, defende a professora Denilde.

Segundo ela, o Brasil sofreu poucos efeitos negativos na balança comercial ou nos investimentos diretos, áreas em que Israel não tem peso determinante para a economia nacional e indica que o Itamaraty operou uma cisão: endureceu o discurso político contra Netanyahu, mas manteve a atuação próxima da posição histórica do Brasil, na defesa da solução de dois Estados.

O “exagero” retórico de Lula, ao usar termos como genocídio, serviu mais internamente, para mobilizar a base petista e inflamar a oposição bolsonarista, do que para alterar qualquer coisa na geopolítica do Oriente Médio.

Para a eleição de 2026, o tema é faca de dois gumes. Para o cientista político Robson Carvalho, se a pauta externa for explorada em excesso pela oposição, pode se voltar contra ela, já que o argumento de que o Brasil viraria uma “pária” perdeu força diante de indicadores internos, e a ação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), acabou servindo como um trunfo para Lula.

Para ele, a postura em relação a Israel pode alimentar a guerra cultural, mas dificilmente define o voto do eleitor médio, mais preocupado com inflação e emprego.

Na campanha de 2026, a política externa de Lula será alvo de ataques da oposição e celebrada como vitória pelo governo. Acordo Mercosul/União Europeia pode ser o grande trunfo para a reeleição do atual presidente. Lula conversou sobre o acordo Mercosul-UE com Ursula von der Leyen e Emmanuel MacronFoto: Ricardo Stuckert/PR/ND

Lula e a crise com os europeus

Enquanto os olhos estavam voltados para Washington e Jerusalém, a relação com a Europa sofreu desgaste silencioso. A Alemanha elevou o tom das cobranças, e a COP30 (conferência do clima da ONU) em Belém expôs as contradições de um Brasil que reivindica liderança climática enquanto decide explorar petróleo na Foz do Amazonas.

O chanceler alemão, pressionado por disputas políticas internas e pela necessidade de acordos comerciais para reanimar a economia, personifica a dualidade: quer o acesso ao mercado sul-americano, mas reforça a cobrança de metas ambientais para atender ao debate doméstico alemão, seja de ambientalistas, seja de protecionistas.

Nesse quadro o Acordo Mercosul-UE, uma novela de mais de duas décadas, entrou em um limbo perigoso: assinado, mas sujeito a travas políticas e à judicialização pelo Parlamento Europeu. Eurodeputados protecionistas usaram manobras legislativas e questionamentos jurídicos para atrasar a entrada em vigor do acordo, sempre com o pretexto de preocupações ambientais.

Embora o acordo esteja tecnicamente travado na Europa, o governo Lula tem conseguido vender, ao público interno, uma ideia de que “fez a sua parte”, aponta Denilde.

Na campanha de 2026, a política externa de Lula será alvo de ataques da oposição e celebrada como vitória pelo governo. Para Flávio Bolsonaro, petista é antissemita.Flávio Bolsonaro ao lado de Netanyahu em eventoFoto: Reprodução/ND Mais

Flávio entra na arena internacional

Enquanto Lula tenta alinhar a narrativa e colher vitórias para vender na campanha de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, faz um tour internacional que incluiu o Bahrein e outras nações do Oriente Médio, onde quer demonstrar que tem estatura presidencial e construir uma aliança conservadora internacional.

A aproximação de Lula a Trump tirou de Flávio o acesso que esperava aos EUA; assim, ele busca “fotos de oportunidade” com chefes de Estado conservadores e monarquias do Golfo para mobilizar sua base.

O objetivo principal não seria convencer a opinião pública geral nem fechar grandes acordos, mas reforçar vínculos com seu nicho, no Brasil, mostrando que tem trânsito internacional.

Já para o embaixador Paulo Roberto de Almeida, a iniciativa de Flávio teria, na sua opinião, um interesse mais financeiro. O filho do ex-presidente teria feito a viagem ao Bahrein para buscar recursos para a campanha.

“É a mesma coisa que o Trump: são negócios, interesses familiares, interesse pessoal, financeiro. Ele quer dinheiro de quem puder dar. Aliados ideológicos, evangélicos, pró-Israel ou árabes, que têm muito dinheiro”, dispara o embaixador.

Política externa pode entrar na pauta do pleito em 2026Política externa pode entrar na pauta do pleito em 2026Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Política externa de Lula em 2026: riscos calculados

Para a campanha de 2026, a política externa de Lula será embalada como “troféu”. A narrativa oficial destacará recuos e exceções no pacote de taxações americanas, a manutenção do diálogo global e a imagem de um Brasil que voltou a sentar nas grandes mesas. O contraste explorado será a linha de isolamento de Bolsonaro.

Mas a oposição deve insistir no alinhamento petista a líderes autoritários, já que o governo ainda carece de uma narrativa simples que justifique alianças com autocracias — da Venezuela à Rússia — para o público interno.

Como a relação com Trump segue instável, pode explodir com um tuíte do presidente americano ou uma nova tarifa intempestiva — e isso pode ser a arma esperada pela oposição. Já a questão de Israel deve continuar a sangrar o governo, ao menos junto ao eleitorado evangélico.

A influência da política externa em 2026 dependerá da capacidade de Lula convencer o brasileiro de que o “nó diplomático” não é entrave, mas um pacote de estabilidade.

Como resume o embaixador: “Não se pode prever a política externa no caos provocado pelo Trump, porque você não tem geopolítica, tem a gestão desse caos”.

E quem conseguir convencer o eleitor de que pode gerir melhor o caos deve ganhar pontos importantes na disputa pelo Planalto.

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