Quando todos saem correndo, assustados com a água que sobe ou o fogo que se alastra, o Corpo de Bombeiros vai na direção contrária, empenhados em salvar a vida de pessoas que não conhecem ou um patrimônio que não é seu.
Os bombeiros localizam trilheiros perdidos, fazem partos em viaturas, retiram banhistas em apuros do mar e estendem a mão a vítimas de acidentes que estão presas nas ferragens, não sem antes aconselhá-las a ficar calmas porque o resgate é uma questão de tempo.
Sem eles, que consequências ainda mais trágicas teriam o incêndio do Hospital de Caridade, em Florianópolis, em 1994, as enchentes de 1974, em Tubarão, e de 1983, 1984 e 2023, no Vale do Itajaí, além dos desmoronamentos do Morro da Baú, em 2008, para citar apenas algumas situações-limite no Estado? O ano de 2026 marca o centenário da criação do Corpo de Bombeiros em Santa Catarina, uma corporação muito respeitada e admirada pela população.
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Uma síntese do que esses profissionais já fizeram está no livro “Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Santa Catarina – 100 Anos Dedicados a Proteger Vidas, Riquezas e Meio Ambiente”, que será lançado na segunda-feira (26), às 10h, no auditório da SSP (Secretaria de Segurança Pública), em Florianópolis. A versão eletrônica da obra estará disponível para download na página da corporação e, em breve, no acervo eletrônico PergamumWeb, da Udesc.
A obra, escrita e editada pelo jornalista Mário Xavier, é um resumo do que ocorreu neste século de atuação dos bombeiros catarinenses, falando do surgimento da corporação, das transformações e avanços na estrutura e no leque dos serviços prestados, dos grandes salvamentos – em incêndios, enchentes, desastres aéreos, catástrofes naturais – de exemplos de pioneirismo e da agregação constante de novas tecnologias.
O comandante geral do CBMSC, coronel Fabiano(à esq.), e o autor do livro, jornalista Mário Xavier: obra que conta a história da corporação teve “construção coletiva”Foto: Alan Pedro/NDO autor contou com a parceria do coronel Vandervan Nivaldo da Silva Vidal e da tenente-coronel Priscila Casagrande na gestão, planejamento e supervisão técnica do livro. O coronel Milton Antônio Lazzaris, autor de quatro obras sobre a história do CBMSC (Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina), foi uma das principais fontes do projeto.
O comandante-geral do CBMSC, coronel Fabiano de Souza, acredita que o prestígio da corporação decorre das características da própria atividade, que muitas vezes envolve pessoas fragilizadas pela iminência de uma tragédia e veem na presença dos bombeiros uma chance de se salvar. “Estamos ali para livrá-los do perigo e dar-lhes um novo alento”, afirma.
Da história à contemporaneidade
A obra usa a linguagem jornalística, tem 368 páginas e está dividida em três partes, mesclando a história com a contemporaneidade. Uma linha do tempo traz muitas informações até hoje esparsas e destaca cerca de 280 marcos que fazem parte da trajetória da corporação.
Desfile dos bombeiroscom a viatura WardLaFrance adquiridana década de 1950Foto: Divulgação/CBMSC/NDOs capítulos seguintes exploram períodos específicos desses 100 anos de história, falando de recursos humanos, expansão dos quartéis, evolução dos equipamentos, processo de emancipação (até 2003 os bombeiros eram vinculados à Polícia Militar), mudanças na legislação relativa à segurança pública e atuações nacionais (Mariana, Brumadinho e outras) e internacionais (casos como o dos incêndios florestais no Canadá) do CBMSC.
A terceira parte aprofunda alguns assuntos tratados nos capítulos anteriores e inclui seções de apelo emocional e institucional, como histórias pessoais e um tributo aos “heróis tombados”. O livro ainda traz uma vasta iconografia, dados sobre acervos históricos, bibliografia, mapas e estatísticas. “Foi uma construção meio coletiva”, diz Mário Xavier, que teve a colaboração de 40 fontes internas especializadas.
Conquista da autonomia, um passo fundamental para o Corpo de Bombeiros
O comandante-geral Fabiano de Souza conta que há dois grandes marcos na história do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina:
- o surgimento da corporação, na terceira década do século passado, quando a multiplicação dos incêndios, sobretudo em estabelecimentos comerciais, mobilizou a sociedade em prol da criação de uma força pública de proteção contra tragédias;
- e a emancipação, pouco mais de duas décadas atrás, momento em que os bombeiros ganharam autonomia administrativa e financeira.
Uso de aeronaves nos salvamentos foi agregado ao trabalho cotidianoFoto: Divulgação/CBMSC/NDHoje, o CBMSC conta com 2.617 profissionais na ativa, a maioria em serviços de campo, e atua em uma vasta gama de atividades, dentro da missão/slogan de “proteger a vida, o patrimônio e o meio ambiente”.
Em 1926, com apenas 28 integrantes, o foco era a segurança contra incêndios. Hoje, a essa atividade – que motivou a criação da corporação – os bombeiros agregaram os salvamentos aquáticos, veiculares e em altura, a busca terrestre e com o uso de aeronaves. Eles também fazem o atendimento pré-hospitalar, perícias de incêndio e ações de defesa civil.
Atualmente, a corporação só admite a entrada de profissionais com ensino superior, investe forte na formação de recursos humanos e mantém programas como os dos bombeiros comunitários, guarda-vidas civis voluntários, bombeiros mirins, juvenis e da melhor idade, entre outros.
Do acidente no Cambirela às grandes enchentes
O livro “Corpo de Bombeiros Militar do Estado de Santa Catarina – 100 Anos Dedicados a Proteger Vidas, Riquezas e Meio Ambiente” ressalta o período que antecedeu a criação da corporação, marcado por indefinições e protelamentos, o envolvimento e apoio do empresariado da época.
As páginas também rememoram a transição do sistema de tração animal para a mecanização das operações, a expansão do efetivo e dos quartéis, a agregação de novas técnicas e ferramentas e a adoção de práticas mais efetivas de resgate e salvamento, a partir de eventos trágicos – como o incêndio da boate Kiss e as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul.
Operações como esta,de apoio nas enchentes de 2024 no RS, ensejaram a adoção de práticas mais efetivas de resgate e salvamentoFoto: Divulgação/CBMSC/NDUm dos primeiros grandes sinistros atendidos pelo então Corpo de Bombeiros da Polícia Militar foi a queda de um avião C-47 da FAB (Força Aérea Brasileira) no morro do Cambirela, em Palhoça, em 1949, quando 28 pessoas, entre passageiros e tripulantes, perderam a vida. O acidente com uma aeronave da Esquadrilha da Fumaça, em 1961, e o choque do Boeing da Transbrasil, em 1980, contra o Morro da Virgínia, que provocou 55 mortes, também estão na história da corporação.
Foi no resgate e salvamento de vítimas de enchentes de grande porte, no entanto, que os bombeiros enfrentaram os maiores desafios. Na grande inundação de 1983, que deixou várias cidades do Vale do Itajaí embaixo d’água, o próprio subgrupamento de incêndio de Blumenau foi atingido e o soldado PM Jordelino Vieira da Silva morreu ao entrar em contato com uma fiação ainda energizada enquanto se deslocava com uma embarcação.
A maior de todas as operações de socorro do CBMSC também teve a ver com um fenômeno meteorológico atípico. No mês de outubro de 2023, chuvas intensas em todo o Estado provocaram uma mobilização simultânea e inédita de todas as equipes especializadas, envolvendo até alunos dos cursos de formação de praças e oficiais no apoio logístico, de segurança e ajuda humanitária.
Durante mais de duas semanas, a corporação prestou 2.142 atendimentos em 159 municípios catarinenses, mobilizando 1.632 bombeiros e empregando 375 viaturas (incluindo caminhões e aeronaves).
Tensão e aprendizado no Morro do Baú
A experiência mais marcante do comandante-geral Fabiano de Souza como bombeiro ocorreu na enchente de 2008, também no Vale do Itajaí. Ele atuava em Rio do Sul e comandou uma operação que durou 17 dias, com foco no Morro do Baú, em Ilhota, onde o excesso de chuvas provocou tremendos desmoronamentos, deixando a região num cenário de guerra. Naquela tragédia, houve 135 mortes e dois desaparecimentos no Vale do Itajaí.
Trabalho nas grandestragédias conta com parceria com cães eformação de forças-tarefasFoto: Divulgação/CBMSC/NDSem acesso por terra, os bombeiros usavam aeronaves da FAB para chegar às áreas mais críticas. Numa casa abandonada, Fabiano precisou enfrentar dois cães famintos, que o ameaçaram, fazendo-o recuar até um rio, onde ficou com água até o peito, esperando que o perigo cessasse. “Foi o evento de maior magnitude de que participei”, conta ele.
Trabalho nas grandestragédias conta com parceria com cães eformação de forças-tarefasFoto: Divulgação/CBMSC/NDNo entanto, foi graças às características únicas daquela calamidade que os bombeiros catarinenses aperfeiçoaram a atuação em áreas deslizadas e passaram a fazer o desmanche hidráulico, um mecanismo de perfuração do solo para que os cães localizem corpos soterrados. “Amolecendo e perfurando a terra, é possível criar um ‘túnel de odor’ que facilita o trabalho dos animais”, afirma o comandante.
Forte presença feminina e pioneirismo
Com 42 unidades e presente em 141 cidades (mais duas em caráter temporário), o CBMSC é “uma instituição indispensável para a qualidade de vida da população”, nas palavras do comandante-geral Fabiano de Souza. A corporação é destaque no país pelo pioneirismo em várias frentes:
- fez o primeiro atendimento pré-hospitalar do Brasil, em 1983, em Blumenau;
- ofereceu o primeiro curso regular de resgate veicular do país, em 1998;
- foi precursora na região Sul no uso de motos aquáticas, em 1991;
- e também inovou com o projeto que permite transfusões de sangue total em pleno voo nos helicópteros Arcanjo, entre uma série de outras iniciativas pioneiras.
CBMSC ofereceu o primeiro curso regularde resgate veicular pesado do país, em 1998Foto: Divulgação/CBMSC/NDO CBMSC também é uma instituição com forte participação feminina. Desde 1996 as mulheres fazem parte da corporação, chegando a comandar batalhões e pilotar aeronaves, além de atuar em programas comunitários. Hoje, 98,2% das bombeiras militares têm formação superior e 57,8% fizeram pós-graduação. “Elas são uma presença cada vez maior entre nós”, afirma Fabiano de Souza. “Ser bombeiro não é uma profissão, mas uma vocação”, conclui o comandante.