A eleição do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), em 2025, marcada por um acordo que garantiu quase a unanimidade dos votos, seria o principal obstáculo da oposição no Congresso no último ano, disse o vice-líder da oposição, deputado Evair de Melo (PP-ES). Segundo ele, em entrevista exclusiva ao ND Mais, em que fez uma retrospectiva do ano legislativo, o presidente Motta teria ficado “refém” dos compromissos assumidos com “ambos os lados” – governo e oposição.
Somando isso à atuação da base do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), teria, segundo ele, minado a capacidade da Câmara de fazer o enfrentamento esperado pela oposição, comprometendo entregas consideradas centrais, em especial a pauta da anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro. Evair afirma que a articulação do Planalto, baseada em liberação de emendas e composição ampla, reduziu o espaço para um embate mais frontal.
“O governo atrapalha muito o presidente Hugo Motta”, defendeu e descreveu a base governista como “gelatinosa” e movida à liberação de emendas. Ele afirma também que Motta “não cumpriu o que prometeu” a Jair Bolsonaro ao não pautar a anistia, e que apresentou à oposição apenas a dosimetria, texto que não interessava ao grupo, mas foi o “possível” para avançar minimamente no tema.
Motta falou em “tirar da frente pautas tóxicas”
Em setembro de 2025, Motta declarou que seria preciso “tirar da frente pautas tóxicas”, mencionando o debate da anistia e defendendo uma saída por consenso que respeitasse o STF, o que, inicialmente, gerou expectativa entre políticos do bolsonarismo por uma solução que aliviasse penas. Depois das negociações políticas e da falta de interesse da maioria dos parlamentares em votar uma anistia ampla, Motta costurou uma saída alternativa, centrada na dosimetria das penas.
Deputado federal Evair Vieira de Melo criticou condenação de Jair BolsonaroFoto: Artur Ribeiro/ND MaisPara Evair, o recesso pode servir para reorganizar a agenda, e ele afirma que a oposição seguirá disposta a votar o que considera “bom para o Brasil”, mesmo que não sejam suas pautas prioritárias. O deputado, porém, faz a ressalva de que, na visão dele, “o que é bom para o PT não é bom para o Brasil”, e promete que, em 2026, a bancada deve aumentar a pressão sobre Motta para pautar temas caros ao bolsonarismo, como a anistia 8 de janeiro e a revisão de decisões do Supremo.
Confira entrevista na íntegra com o vice-líder da oposição na Câmara, deputado Evair de Melo
O senhor acredita que, com tantas pautas importantes em 2026, o presidente Hugo Motta tem condições políticas para avançar em pleno ano eleitoral?
Não tem como ter uma Câmara mais resolutiva com o governo com a base tão gelatinosa igual a base do governo Lula, que não tem programa.
Seus ministros (do governo Lula) operam como membros fora do corpo; não trabalham de forma coletiva.
O Lula mais viaja do que trabalha. Me disseram que, antigamente, nos governos anteriores, recebia deputados, recebia senadores, que era um homem de diálogo. Hoje é um homem prepotente, arrogante. Parece que está sempre nervoso, com raiva de alguma coisa. Portanto, sem nenhuma capacidade emocional de cumprir o papel que deveria cumprir.
O senhor conversou com o presidente Lula em algum momento?
Nunca vi o Lula na minha vida. Ele não vai na Câmara, eu não vou ao Palácio do Planalto. Como ele não pode ir para as ruas, o Lula está se comportando como um fugitivo: só recebe os seus nos gabinetes reservados do Planalto.
O presidente Lula não trabalha, não dialoga. O que ele faz é assédio. Não tem uma base orgânica; é muito gelatinosa na Câmara, o que comprometeu muito as entregas do presidente Hugo Motta.
Ele teve uma eleição (Hugo Motta) em que trabalhou para ter o apoio da unanimidade da Casa. Com isso, ele ficou com os pés e as mãos atadas. Você não pode fazer um pacto com o bem e com o mal ao mesmo tempo; daí não consegue enfrentar.
Acho que ele ficou refém dessa agenda, porque não pode fazer o enfrentamento; ele sabe o que tratou com ambos os lados. No nosso caso, ele não cumpriu o que prometeu ao presidente Jair Bolsonaro. Ele prometeu à população que iria pautar a anistia, nada de dosimetria. Foi promessa de campanha dele e, infelizmente, ele não cumpriu.
Foi muito ruim, porque nós ainda temos que confiar na palavra dele, mas o governo atrapalha muito o presidente Hugo Motta. O governo é confuso, governa perdido. Tem o Rui Costa e o Haddad; ele é uma farsa.
Com um ministro da economia tão fraco, tão incompetente, o Brasil não pode estar em boas mãos. Quem sai de Paulo Guedes e vai para Haddad é mudar de água para óleo.
Tudo isso comprometeu muito o trabalho do presidente Hugo Motta, mas eu espero que, nesse recesso, ele possa fazer uma reflexão, possa se recompor.
Do nosso lado da oposição, temos toda a disposição de votar aquilo que for bom para o Brasil.
Mas é importante lembrar que aquilo que é bom para o PT não é bom para o Brasil. Esse é o histórico petista: ou ele está mentindo ou está roubando. Nesse governo, estão mentindo e roubando. Eles deixaram muito claro isso com o rombo das nossas estatais, o déficit das contas públicas, a ganância do Haddad, que só quer arrecadar, arrecadar, arrecadar, sem cortar uma despesa.
Isso mostra um governo irresponsável, que vai, como eu disse, vender a mãe e entregar para tentar ter sucesso eleitoral em 2026.


